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O emprego finou. Paz à sua alma.

O desemprego no mundo. Fonte: OIT
Nas últimas seis semanas, houve impressionantes 30 milhões de pedidos de desemprego nos EUA - sem precedentes pelo menos desde a Grande Depressão, possivelmente na história do país. O emprego finou. Paz à sua alma. Descanse em paz que bem merece depois de tão valiosos e sofridos serviços prestados à humanidade. Seu corpo moribundo está sendo definitivamente velado pela pandemia do coronavírus. Sem cerimônia. Era uma morte anunciada. Não surpreende ninguém. Todos os políticos da terra, no Brasil e no mundo, da extrema esquerda à extrema direita, se faziam eleger prometendo baixar as taxas de desemprego, mas não passavam de promessas de vida a doente terminal já definitivamente condenado pelas estatísticas. Segundo relatórios publicados anualmente pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), desde o ano 2002/2003 que não se criava um único novo posto de trabalho no mundo. As leis laborais decretadas incessantemente pelos políticos eram só para inglês ver.



Que o emprego esteja morto é uma excelente notícia porque o mundo atual dispõe de conhecimento suficiente e tecnologia bastante, capazes de realizar tarefas e de suprir qualquer tipo de mão de obra necessária ao sistema produtivo sem recorrer ao emprego de pessoas. Atingimos um estádio de desenvolvimento que não precisa mais de se servir de pessoas como carne de canhão. A má notícia é que os políticos, os religiosos e os que detêm o poder não acompanharam a evolução intelectual nem o desenvolvimento tecnológico e continuam convencidos de que a sociedade precisa das pessoas não para se realizarem em busca do bem estar e da felicidade, mas sim para perpetuarem as desigualdades entre pobres e ricos.


O desemprego no Brasil. Fonte IBGE
No Brasil como no mundo, o crescimento do desemprego é inelutável. Há cinco anos atrás, às vésperas da eleição de Trump, os analistas reunidos no Fórum de Davos na Suíça, discutindo sobre as transformações na economia mundial e no mercado de trabalho, já previam que nos anos seguintes, por cada sete milhões de empregos que se perdessem, apenas dois seriam recuperados. Esse anos já chegaram. Por causa da crise que se abateu sobre o Brasil com a cletocracia do PT e piorou com a recente eleição de Bolsonaro, essa realidade chegou ao Brasil bem mais rápido.


Não tem como contrariar essa tendência. Com o Covid-19 a taxa de desemprego no Brasil vai dobrar. Ainda segundo os estudos apresentados em Davos, lá para 2030, mais de metade dos atuais postos de trabalho estarão automatizados ou terão ficado obsoletos, ou seja, mais máquinas no lugar de pessoas. Sessenta por cento dos empregos a ser ocupados por aqueles que entram hoje nas escolas ainda nem sequer foram criados. Mas eles existirão e serão ocupados por aqueles que hoje souberem se preparar para as transformação vertiginosa da revolução tecnológica em curso que já está transformando os sistemas de produção, distribuição e consumo. A pandemia do coronavírus veio acelerar esse processo. No final deste ano 2020 terão desaparecido mais de 20% de oportunidades de emprego no Brasil e no mundo. E eles não voltarão a aparecer. Acabou. O emprego morreu.

Se o emprego morreu o que virá substituí-lo? Para bem da humanidade esse emprego passará a ser ocupado por máquinas, por robots, movidos a algoritmos, pensados por inteligencia artificial. Não estou falando de uma revolução cibernética futurista. Ela já aconteceu, só faltava um empurrão para que ela invadisse o nosso cotidiano. Esse empurrão acabou de ser dado pelo coronavírus. 

Desempregados do mundo uni-vos! Não tereis mais que ir para a rua pedir emprego. Agora sereis obrigados a ficar em casa gritando e batendo panelas por alimento e dignidade. O vosso pior inimigo não é a falta de emprego. Nem tão pouco a falta de riqueza. É a falta de visão e empatia dos políticos, religiosos e lideres que ocupam o poder com o vosso voto de alienados.

Não tem para onde fugir. Estamos condenados ao progresso. Porém não a esse progresso positivista e retrógrado que inspirou a bandeira do Brasil, acompanhado de um conceito de ordem tacanho e preconceituoso ao qual o clã Bolsonaro e seus seguidores estão tão apegados. O salto tecnológico ao qual assistimos traz boas novidades. Tal como aconteceu nas anteriores revoluções industriais e sociais, ele trará um aumento de produtividade e por consequência de riqueza. A questão é de saber: -como será distribuída essa riqueza?

Historicamente o Brasil reluta revoluções. A revolução industrial só chegou ao Brasil na sua fase decadente porque competia com o sistema escravagista do qual a elite brasileira tirava fabulosos e indecentes lucros. As revoluções sociais foram levadas a cabo por desgraçados que não tinham onde cair mortos neste “paraíso” de coronéis e foram afogadas em banhos de sangue do qual a Guerra de Canudos relatada por Euclides da Cunha é o melhor exemplo. As revoluções políticas foram marcadas pela traição e pelo conluio que resultaram na Proclamação da República contra o único vulto com estatura de estadista que o Brasil conheceu. A "revolução" de 1964 chegou com a promessa de nunca ficar e ficou porque os "canalhas", assim definidos por Tancredo Neves, o exigiram. São esses mesmos canalhas que voltaram hoje ao poder. Como se o Brasil precisasse de regredir quando é tão urgente progredir.


Guerra de Canudos
Com a revolução tecnológica não está sendo diferente. O Brasil teria condições de resgatar sua vocação de grande nação continental e rica mas preferiu, com a eleição de Bolsonaro, perpetuar-se na senda da mediocridade. A cletocracia do PT já estava derrotada, com o Lula na prisão e o impeachment de Dilma consumado. Havia condições sociais e oportunidade politica de instituir uma nova politica próspera e justa elegendo lideranças competentes. Opções não faltavam no vasto espetro politico brasileiro. Em vez disso, foi içada ao poder uma reles oligarquia familiar obcecada por mamadeiras de piroca, aos mandos e desmandos de uma plutocracia inculta, unidos num mesmo propósito: o de perpetuar a desigualdade de renda e o baixo grau de mobilidade social que teimam em fazer do Brasil um país pobre, para não dizer um pobre país. Apesar deste cenário desolador e deprimente não sou a favor do impeachment de Bolsonaro. Acredito que o melhor castigo que pode ser aplicado a quem o elegeu é ele ser obrigado a concluir o mandato. Se a democracia sobreviver, o povo brasileiro também sobreviverá e sairá fortalecido.

Todos os dias se levantam vozes, de todos os quadrantes intelectuais, sociais econômicos e políticos da sociedade, para afirmar que é preciso repensar o sistema capitalista e ultrapassar sua perversidade que consiste no acúmulo desenfreado de riqueza de uns em detrimento de outros. Cada vez é mais fácil criar riqueza com menos esforço. Graças a novas e sofisticadas tecnologias, a humanidade está em condições de resolver qualquer tipo de penúria mas em contrapartida exige capacidade de governança. Para impedir que os ricos sufoquem definitivamente os pobres e transformem este planeta num lugar não frequentável, o principal problema que a humanidade precisa resolver é a distribuição de riqueza.

Desde que me conheço por gente que escuto aquele bordão: "enquanto o comunismo quer acabar com os ricos, o capitalismo quer acabar com os pobres." Não existe nada mais falacioso. Nem o comunismo quer acabar com os ricos, nem o capitalismo quer acabar com os pobres. As duas ideologias, cada uma à sua maneira, apenas querem perpetuar seu domínio sobre os meios de produção. A doutrina igualitarista do comunismo é tão falaciosa quanto a doutrina liberalista do capitalismo. As duas anseiam tomar conta da máquina do Estado para através dela impôr uma classe de privilegiados contra uma classe de alienados. A diferença é que no comunismo os alienados são perseguidos e no capitalismo eles são excluídos.

A espécie humana é a única capaz de acreditar em coisas que não existem na natureza: deuses, nações, dinheiro, ciências… Usando desta extraordinária capacidade imaginemos que o presidente da república recém eleito era uma pessoa instruída, bem intencionada, com bom caráter, apoiado por uma família estruturada, preparado para mobilizar as forças da nação de modo a enfrentar os grandes desafios da atualidade e transformar o Brasil no país do futuro que sempre prometeu ser. Entre esses desafios o principal seria de conseguir a proeza de explorar e valorizar as riquezas do Brasil sem ficar dependente da criação de um único posto de trabalho, utilizando o potencial tecnológico e criativo à disposição para fazer do Brasil uma nação próspera e poderosa.


No lugar disso o que é que temos? Temos um Bolsonaro despreparado, sua prole com mentalidade da idade da pedra, suas milícias fazendo ofício de jagunços, seus ministros todos tão despreparados quanto ele, um suposto guru que passa o seu tempo a conspirar e um povo sofrido, maravilhoso e diverso à espera de um Messias que não se chame Bolsonaro.

Mas se não vamos criar nem mais um posto de trabalho o que vamos fazer com os desempregados? Como vamos sustentá-los? Vamos pagar para que eles fiquem parados? A melhor resposta a estas perguntas foi dada por um dos homens mais ricos do mundo e sem dúvida o maior especialista em saber como se tira dinheiro das máquinas e da inteligencia artificial. Seu nome é Bill Gates. Ele defende a cobrança de impostos sobre robots. Parece impossível? Não é. Isso já está acontecendo. Máquinas e robots já estão sendo taxadas e produzindo riqueza para os seus donos e inventores. Por que não haveriam de pagar uma taxa para aqueles que ficaram desempregados e que passam fome? A resposta é politica.


O relatório anual da OIT publicado em janeiro 2020 revelava que o número de pessoas desempregadas no mundo deveria aumentar para 190,5 milhões.  Previa-se um aumento de 2,5 milhões de desempregados no mundo, A taxa de desemprego global foi de 5,4% em 2019. "Para milhões de pessoas comuns, é cada vez mais difícil construir uma vida melhor graças ao trabalho", disse o diretor-geral da OIT, Guy Ryder, em entrevista coletiva. Quase 61% da força de trabalho no mundo realiza trabalhos informais e mal remunerados ou que oferecem pouco ou nenhum acesso à proteção social e aos direitos trabalhistas. Da mesma forma, mais de 630 milhões de trabalhadores no mundo - isto é, uma em cada cinco pessoas na população ativa do mundo - vive em condições de pobreza extrema ou moderada (definida por ganhos de mais de 3.20 dólares, cerca de 13 reais, por dia em termos de paridade do poder de compra). Enquanto isso as 20 maiores tecnológicas do planeta renderam a seus donos a módica fortuna pessoal  de 740 bilhões de dólares. Na política dos EUA, uma garantia de emprego era vista como um radicalismo esquerdista sem esperança, há apenas um mês. Mas o choque do vírus trouxe o tema para a ordem do dia. Em todas as esferas se discute essa possibilidade, para não dizer necessidade.

No Brasil, IBGE detecta que taxa de desocupação passou para 12,2% no trimestre encerrado em março, e já estava alta antes do coronavírus. Representa aproximadamente 12,5 milhões de pessoas sem trabalho. A tendência é que este número dobre daqui até ao final do ano e que o Brasil conte aproximadamente 30 milhões de desempregados que não voltarão a arrumar trabalho. Não vale a pena vir com falsas promessas, porque quem está desempregando dificilmente voltará a empregar. 

Bolsonaro está nas ruas, contra recomendação científica, contra o bom senso, contra a saúde pública... apregoando que faz isso em nome do emprego. Mesmo no pior cenário, que prevê que o Brasil sacrifique 30,000 almas no altar do coronavírus, esse número é insignificante se comparado com os mais de 30 milhões de brasileiros que ficarão sem emprego e serão condenados a passar fome por causa da pandemia do coronavírus. Se Bolsonaro tivesse estatura de estadista ele já teria montado um gabinete de crise para estudar e promover meios de enfrentar a crise de desemprego empiorada pelo coronavírus, investindo em tecnologia, inteligência artificial, educação, ciência, planejamento, massa cinzenta....

Mas isso é pedir demais a Bolsonaro, não é ? 

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