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Mostrando postagens de abril, 2020

Grito de liberdade

Esta semana, um amigo meu que leu um texto que escrevi comemorando os 60 anos de Brasília, ligou-me para dizer o seguinte: - ”João, toma cuidado, você está se expondo. Adorei o seu texto mas você deixa muito claras as suas convicções. Nos tempos que correm você não deveria ser tão transparente. Isso pode te trazer problemas.” - Como assim? Quais problemas? O que está acontecendo? Indaguei eu. Ele continuou: “você tem responsabilidades, você tem família, você se coloca nitidamente contra a ordem estabelecida. Isso não é bom. Já aconteceu. Na época do regime militar. As pessoa sumiam sem aviso. De repente. Com o confinamento estamos muito fragilizados. Podem chegar em tua casa e te levar”… Fiquei assustado. Perguntei: mas você sabe de algum caso concreto? De alguém que tenha sido preso? Com esse tresloucado de Bolsonaro no poder, nunca se sabe… Ele disse-me que não, que o Bolsonaro é gente boa, que é um excelente presidente, que só estava me alertando porque achava melhor eu não ar...

Brasília 60 anos de idade e 520 anos de Utopia

A primeira vez que vim a Brasília, em 2001, foi de forma inesperada. Ao tentar entrar numa área indígena Guarani, em Boraceia, no litoral paulista, deparei-me com uma placa onde estava escrito: ÁREA PROIBIDA. Trazia credenciais e uma bolsa de estudos da Universidade de Lyon (França) para efetuar pesquisa de mestrado nessa área indígena mas ninguém me tinha avisado desse detalhe: precisava de uma autorização da Funai para ingressar na terra indígena. O funcionário da Funai de plantão disse-me que o melhor seria eu me deslocar a Brasília para obter a tal autorização sem a qual ele não poderia me deixar entrar, e muito menos efetuar pesquisa científica. No dia seguinte entrei num ônibus rumo a Brasília. Em 2001 ainda havia pedaços de estrada sem asfalto para chegar de São Paulo a Brasília. Tive a impressão que a capital do Brasil ficava no fim do mundo.  Quando cheguei aqui fiquei ainda mais impressionado. Para quem estava habituado às capitais do velho mundo a primeir...

Hong Kong - palco da nova ordem mundial?

Hong Kong - entre tradição e modernidade A pandemia do coronavírus inspira eruditos das mais diversas áreas e serve de gabarito a quantidade de especialistas, interessados em medir o impacto que ela será capaz de provocar nas transformações econômicas, políticas, sociais, culturais e religiosas do nosso tempo. Não sendo erudito nem especialista, é na qualidade de observador que gostaria de dar a minha contribuição a uma reflexão sobre a nova ordem mundial que se avizinha. Reflexão essa já começada a esquissar num outro artigo que escrevi neste blog . Meu olhar se fixa em Hong Kong que identifico como sendo palco de uma nova ordem mundial. Observar o que se passa em Hong Kong hoje é antever o mundo de amanhã. Um mundo que será uma mistura de capitalismo selvagem com comunismo repressivo. Onde contra a garantia de certas liberdades será exigida a submissão a controles restritivos. Uma mistura de império britânico decadente com império chinês ressurgente. Hong Kong tem est...

Contaminados e revoltados

Olhar o mundo através do conceito de contaminação parece vir muito a propósito em tempos de pandemia mas não é um exercício fácil. Não é um conceito confortável. A contaminação carrega com ela o estigma do contágio. Coloca-nos em contato com o mórbido, com o doentio, com a insegurança, com o involuntário, com o inesperado, com o imprevisível, com o perigoso, com a transformação, com a mudança, com o medo. Ser contaminado é deixar de ser eu mesmo para passar a ser eu mais alguma coisa que me invadiu e me transformou, me deixou diferente, frágil, desconfortável, doente, em risco de vida. Do ponto de vista biológico a contaminação mexe com o que há de mais vital, a saúde. Tem consequências físicas imediatas que mexem com o corpo, com a pele, com os olhos, com a boca, com o nariz. Que mexem com os sentidos, com funções tão vitais como como olhar, cheirar, apalpar, respirar, dormir, comer, ter prazer. Se transposto para esfera social o impacto é enorme. Logo surgem conceitos como lim...