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Contaminados e revoltados


Olhar o mundo através do conceito de contaminação parece vir muito a propósito em tempos de pandemia mas não é um exercício fácil. Não é um conceito confortável. A contaminação carrega com ela o estigma do contágio. Coloca-nos em contato com o mórbido, com o doentio, com a insegurança, com o involuntário, com o inesperado, com o imprevisível, com o perigoso, com a transformação, com a mudança, com o medo.

Ser contaminado é deixar de ser eu mesmo para passar a ser eu mais alguma coisa que me invadiu e me transformou, me deixou diferente, frágil, desconfortável, doente, em risco de vida. Do ponto de vista biológico a contaminação mexe com o que há de mais vital, a saúde. Tem consequências físicas imediatas que mexem com o corpo, com a pele, com os olhos, com a boca, com o nariz. Que mexem com os sentidos, com funções tão vitais como como olhar, cheirar, apalpar, respirar, dormir, comer, ter prazer.

Se transposto para esfera social o impacto é enorme. Logo surgem conceitos como limpo, sujo, puro, impuro, raça, diferente, estranho, intruso, jovem, idoso. Surge a necessidade de colocar um nome, um rótulo, vírus chinês, gripe espanhola, peste negra. Impõe-se uma gestão negativa do espaço: distanciamento, isolamento, quarentena. Interfere com toda a organização social, o trabalho, a família, o lazer.

O coronavírus é universal, planetário, não distingue raça nem credo, nem classe social, nem sistema político ou econômico. Basta respirar para pegar. Quem não respirar não pega mas ainda pode contaminar os outros quando se juntam para o enterro ou cremação. Acabou com a cerimônias fúnebres. É desolador. Até nos ritos de passagem o coronavírus nos coloca em pé de igualdade perante Deus.

Perante Deus somos iguais mas não perante os políticos que nos governam. Uns dizem que precisamos tomar o máximo de cuidado, outros dizem que não está acontecendo nada. Especialistas evocam a ciência, outros evocam a falta dela, religiosos pedem proteção divina, outros pedem o sacrifico de uns em nome da salvação de outros, nosso vizinho fica invisível, enquanto nossos amigos estão cada vez mais ativos soltando todo o tipo de teorias da conspiração.


“No decorrer da história, e em praticamente todas as sociedades, conceitos de contaminação e pureza tiveram papel fundamental na imposição de divisões políticas e sociais e foram explorados por muitas classes dominantes a fim de estes manterem seus privilégios” (...) “Se você quer manter qualquer grupo humano isolado - mulheres, judeus, ciganos, gays, negros -a melhor forma é convencer todos de que essas pessoas são fonte de contaminação.” (Yuval Noah Harari, in “Sapiens”, pág. 191)

A história, que poderia servir de referência para nos ajudar a compreender como a humanidade reagiu em circunstancias semelhantes, aparece agora como uma realidade distante. Em vez de aprendermos, estamos perante as mesmas insanidades tendo como protagonistas os políticos de hoje repetindo os mesmos erros de seus pares no passado. Para ilustrar esta realidade não posso deixar de evocar o maior higienista português de todos os tempos, Ricardo Jorge, que na virada do século passado, em 1899 teve que fugir da sua cidade natal, o Porto, onde desenvolvia operações profiláticas no sentido de eliminar a peste bubônica em Portugal. Ao mandar evacuar casas, impor o isolamento e a desinfecção de domicílios, desencadeou a fúria popular que, incentivada por grupos políticos da época, obrigaram o eminente médico a abandonar a cidade do Porto para salvar a pele e a se refugiar na cidade de Lisboa, onde viria a fundar o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge que ainda hoje administra o sistema de saúde em Portugal. Não sei se isso ajudou mas aparentemente os portugueses de hoje aprenderam com isso porque estão sendo reconhecidos entre aqueles que melhor estão sabendo lidar com a pandemia do coronavírus.


O mesmo não está acontecendo com o Brasil. A revolta da vacina em 1904, na cidade do Rio Janeiro, então capital do Brasil, parece não ter ensinado nada ao carioca Jair Bolsonaro que não se cansa de repetir o bordão: “quem não conhece a história está condenado a repeti-la”. Se em vez de repetir como um papagaio frases famosas e plenas de sentido, ele refletisse nelas, o Brasil estaria muito melhor.


A Revolta da Vacina aconteceu por causa da vacinação obrigatória. O projeto exigia comprovantes de vacinação para a realização de matrículas nas escolas, para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e casamentos. Previa-se também o pagamento de multas para quem resistisse à vacinação. Então, o povo indignado e contrariado iniciou uma série de conflitos e manifestações que se estenderam por cerca de uma semana. Embora a vacinação obrigatória tenha sido o deflagador da revolta, logo os protestos passaram a se dirigir aos serviços públicos em geral e aos representantes do governo, em especial contra as forças repressivas. Um grupo de militares florianistas e positivistas, com o apoio de alguns setores civis, tentou se aproveitar do descontentamento popular para realizar um golpe de Estado na madrugada do dia 14 para o dia 15 de novembro de 1904, que, no entanto, foi derrotado.”


"O médico Oswaldo Cruz ficou encarregado do saneamento da cidade, assumindo a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) com a intenção de enfrentar a febre amarela, a varíola e a peste bubônica. Para tal, exigiu de Rodrigues Alves, Presidente da República, a mais completa liberdade de ação, além de recursos para a aplicação de suas medidas. Em 1904, os serviços sanitários foram reformados, suprimindo-se a dualidade de atribuições entre os governos municipal e federal após a aprovação de um projeto de lei que já tramitava desde o ano anterior. Assim, a DGSP podia invadir, vistoriar, fiscalizar e demolir casas e construções, além de contar com um foro especial, dotado de um juiz especialmente nomeado para dirimir as questões e dobrar as resistências”.


Como se a contaminação não bastasse ainda temos que lidar com a revolta de ser governados por um energúmeno ignorante e canalha que em vez de ficar em casa, aquela casa que todos nós pagamos para ele morar, vem para a rua cuspir para o ar e falar insanidades, colocando em risco de vida toda uma população indefesa, inclusive aqueles para quem ele é um ídolo. Bolsonaro é tão insano que ainda não compreendeu que mesmo se amanhã fossem levantadas todas a barreiras legais que impedem a pessoas de trabalhar para não disseminar o vírus, mesmo assim, as pessoas ficariam em casa por medo de ser contaminadas.

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