
Quando se fala em nova ordem mundial afloram logo à mente uma série de teorias da conspiração: máfia, maçonaria, priorado de Sião, grupo de Bilderberg, ordem dos Illuminati, cavaleiros da mesa redonda, Big Brother, ordem dos Templários, quarto Reich, quinto império, invasão alienígena, New Age, Admirável Mundo Novo, Foro de São Paulo…
A mais recente teoria da conspiração denominada “paciente zero” acabou de provocar uma severa manifestação do Departamento de Estado Americano contra a China. Os Estados Unidos convocaram, nesta sexta-feira, (03/03/2020), o embaixador chinês em Washington, Cui Tiankai, para uma reunião no Departamento de Estado, depois que um porta-voz da Chancelaria da China afirmou no Twitter que militares americanos teriam sido responsáveis por levar o novo coronavírus para a China. Sem apresentar provas, Zhao Lijian, um dos porta-vozes do Ministério das Relações Exteriores chinês, disse que o próprio Exército dos EUA levou a pandemia à cidade de Wuhan, onde a doença começou a se manifestar. Em mandarim e inglês, ele divulgou em sua conta do Twitter (321hgtbZhao): - "Quando o paciente zero começou nos EUA? Quantas pessoas estão infectadas? Quais são os nomes dos hospitais? Pode ser que o Exército americano tenha levado a epidemia a Wuhan. Seja transparente! Torne público seus dados! Os EUA nos devem uma explicação!" (...) Aos Estados Unidos de replicar com veemência: - “A divulgação de teorias da conspiração é perigosa e ridícula. Queremos avisar que não toleraremos isso, para o bem do povo chinês e do mundo” — disse uma autoridade do Departamento de Estado.
Como vemos os americanos levam muito a sério a divulgação de teorias da conspiração porque eles sabem exatamente o quanto elas são poderosas e podem influenciar a opinião pública. É claro que os chineses também sabem disso. Porém, um olhar atento sobre os acontecimentos extraordinários que provocaram convulsões na História, mostram que as grandes transformações que levaram à queda de impérios e provocaram mudanças radicais na humanidade raramente foram previstas por teorias conspiratórias. Elas são mais frequentemente o resultado de fraquezas humanas, políticas e culturais que se manifestam de forma bem mais trivial do que as elaboradas teorias da conspiração.
Teorias conspiratórias são elucubrações de espíritos ociosos ou imaginativos em excesso que, insatisfeitos com explicações plausíveis ou inconformados com o resultado dos acontecimentos, deliram dando crédito a teorias que preenchem o vazio de suas mentes e satisfazem seus egos desmedidos. As intervenções no curso dos acontecimentos que transformaram o mundo, não foram fruto de mudanças repentinas provocadas por algum suposto iluminado ou conspirador, mexendo cordelinhos nos bastidores da História. A História mostra-nos que elas costumam ser muito mais prosaicas. Cito apenas três exemplos: Princesa Diana, Napoleão Bonaparte, Rei D. Sebastião.
Quando Lady Di encontrou a morte no túnel Alma em Paris, a bordo de um possante carro, logo surgiu profusão de conspirações. Uma delas, dizia que a coroa britânica armou o acidente para impedir que ela casasse com um muçulmano, que morreu no mesmo acidente, de quem ela estaria grávida. Na realidade, depois de encher milhares de páginas com inquéritos e de mobilizar todas as polícias de França concluiu-se que a morte dela, cujos exames revelaram que não estava grávida, teve a mesma origem que milhares de outras mortes: “álcool ao volante”. Henry, o motorista, além de estar medicado ao Prozac, um antidepressivo, tinha bebido vários whiskies no bar do Hotel Ritz, antes de pegar o volante da Mercedes S280, da qual perdeu o controle por dirigir em alta velocidade, turbinado pela adrenalina de querer escapar dos paparazzi que o perseguiam.
Napoleão Bonaparte, imperador francês destituído depois de perder a batalha de Waterloo, para
demovê-lo da tentação de retomar o poder, foi exilado na Ilha Santa Helena bem no meio do Atlântico Sul, onde morreu seis anos depois, vitimado por um câncer de estômago, segundo seu médico particular. Logo apareceu uma teoria da conspiração dizendo que teria sido envenenado lentamente com arsênico. O poderoso Napoleão não podia morrer como o comum dos mortais? de doença? Pouco antes de morrer ele declarou “Eu sei a verdade e estou resignado”. O que ele sabia era que estava morrendo da mesma doença que já havia vitimado o pai dele.
D. Sebastião, 16º rei de Portugal, o rei moço, morto na Batalha de Alcácer-Quibir no dia 4 de agosto de 1578, foi criado no mais puro fanatismo religioso pelo seu tio Cardeal D. Henrique, “O Casto”, que governou enquanto ele não atingia a maioridade e reinou depois de sua morte, até que Filipe II de Espanha se apoderou do trono de Portugal em 1580, significando assim a queda do Império Português. Apesar de ter os seus restos mortais enterrados no Mosteiro dos Jerônimos, ainda permanece no imaginário popular como o “Rei Adormecido”, que regressará numa manhã de nevoeiro para livrar Portugal de todo o mal. A lenda persiste, pois o seu corpo não foi encontrado, o que abriu um precedente para inúmeros burlões se apresentarem como D. Sebastião. Filipe II, disposto a encerrar de uma vez por todas este regresso miraculoso, apresentou um conjunto de restos mortais como sendo “ O Encoberto”. Apesar disso, o povo português jamais deixou de levar no coração a esperança do retorno do rei e a falta de provas quanto às ossadas pertencerem ao monarca só alimentou o mito do “Sebastianismo” que ainda hoje tem adeptos milenaristas no Brasil.
Teorias conspiratórias são atemporais e, via de regra, escolhem poderosos e famosos. Quer saber quem é o mais poderoso do momento? Identifique o número de teorias conspiratórias que gravitam à volta dele. Neste momento estão na moda as teorias conspiratórias que envolvem a China o que, por si só, já revela que estamos perante uma nação poderosa. Até há bem pouco tempo as teorias da conspiração prediletas gravitavam à volta da Rússia e dos Estados Unidos.
Se se instituísse um prêmio para o maior disseminador de teorias da conspiração, acredito que Olavo de Carvalho sairia vencedor. Eis algumas pelas quais ficou famoso: Não há provas do heliocentrismo, a Terra não se move; Pepsi Cola usa células de fetos abortados como adoçante; Macumba é uma gozação satânica; traficantes serão a nova classe dominante na América Latina; 30% da população da Holanda está inutilizada pelo consumo de drogas; a ONU controla o governo de todos os países do mundo; a rejeição da conduta homossexual é universal; quando o movimento gay adquirir autoridade, o passo seguinte é legalizar a pedofilia; astrologia é um problema científico; o Foro de São Paulo não é uma ficção; Bill Gates mandou criar o coronavírus em laboratório; não existe um único caso confirmado de morte por coronavírus; o coronavírus é a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana; o Brasil como nação independente não existe mais. É um protetorado chinês.
Afirmar que Olavo de Carvalho é o maior charlatão da atualidade não é uma teoria conspiratória. Tem vídeos gravados e livros publicados onde defende com unhas e dentes cada uma das suas teses. Intitula-se professor e filósofo, mas não obteve qualquer tipo de diploma ou certificado em escolas reconhecidas. É o homem que exerce maior influência sobre o Presidente Bolsonaro, seus filhos e vários ministros em exercício na República Federativa do Brasil. Mas quem pensa que ele é uma voz pregando no deserto para meia dúzia de trogloditas está enganado. Seus adeptos são legião, sobretudo nas fileiras dos que elegeram Bolsonaro presidente da República, ou seja, uns 50 milhões de brasileiros.
Não falaria do Olavo de Carvalho se fosse apenas para denunciar mais um charlatão. Afinal, de charlatões está o Brasil cheio: pastores evangélicos vendendo milagres, deputados ignaros oferecendo vantagens corruptas, videntes se comunicando com o além em troca de favores… Falo de Olavo porque do ponto de vista antropológico ele é um caso que merece ser estudado. Ele representa tudo o que há de mais retrógrado, agressivo e casca-grossa no campo político e “intelectual” brasileiro do momento. Para alcançar toda essa notoriedade, ele adotou como lema uma frase de Roger Stone, mentor de Donald Trump: -“Falem mal de mim, mas falem!”
No Brasil, ele é o mais ilustre representante da direita radical americana que propaga sem qualquer censura ou pudor as teses terraplanistas, homofóbicas, racistas, supremacistas, nazistas, anti-comunistas, anti-globalistas, anti-direitos humanos, anarco-capitalistas e nacionalistas. Para melhor alcançar seus objetivos instalou-se no Estado da Virgínia, EUA, de onde dirige suas milícias digitais.
Esta retrospectiva traz-nos de volta à questão inicial: Mas afinal estamos perante uma nova ordem mundial ou estamos apenas sendo manipulados por uma série de teorias conspiratórias ?Já vimos que circula por aí profusão de teorias conspiratórias tendo como epicentro a China. Isso revela de que este país está no centro das atenções. É indiscutível que a China de Xi Jinping tem um projeto de liderança geoestratégica que vai muito além das fronteiras chinesas: a China é dona de um em cada 10 portos na Europa; ela lidera mais de 50% do investimento estrangeiro na África, onde acabou de instalar uma base militar em Djibouti; tem interesses tão significativos na Austrália que foi preciso aprovar uma lei para impedi-la de investir em partidos políticos e em setores estratégicos da economia australiana; a China é o maior comprador de soja brasileira, o principal parceiro comercial do Brasil e o maior importador de óleo bruto e petróleo brasileiro, adquiriu 56% do petróleo exportado pelo Brasil em 2018; o governo chinês detém mais de um trilhão de dólares investidos na dívida pública dos EUA….
Mas antes de continuar falando de nova ordem mundial convém saber qual seria a ordem mundial atual. É trivial falar que a supremacia americana representa a liderança da presente ordem mundial, a que se convencionou chamar o Mundo Ocidental. A hegemonia do mundo ocidental impôs-se a partir das grandes descobertas inauguradas pelos portugueses e pelos espanhóis na transição do século XV para o século XVI. Depois pela colonização imposta por todas as potências coloniais, das quais se destacou a Inglaterra com seu vasto Império, até meados do século XX. Enfim pela supremacia dos Estados Unidos da América, herdeiros naturais dos ingleses, inaugurada com a Segunda Guerra Mundial, até aos nossos dias. Estamos há mais de 500 anos sob a liderança do mundo ocidental. Porque haveríamos de mudar?
Alain Touraine, sociólogo francês de renome, pode ter dado algumas pistas para responder a essa pergunta numa recente entrevista que deu ao jornal El País: “Estamos em uma guerra sem combatentes. Não há estrategista: o vírus não é um chefe de Governo. E, do lado humano, vivemos em um mundo sem atores.” Nessa mesma entrevista ele chama a atenção para o grande vazio de lideranças no mundo ocidental, “Nós nos encontramos em lugar nenhum, em uma transição brutal que não foi preparada nem planejada.” E quando um grande vazio de liderança e um grande silêncio se impõem logo aparece alguém para tentar preencher esse vazio. Segundo ele já estivemos em situação semelhante na Europa, e ... “o vazio foi rapidamente preenchido pelo senhor Hitler”.
Certo é que as grandes polarizações a que assistimos neste momento no mundo ocidental, embora estejam sendo protagonizadas por líderes arrogantes e prepotentes, não significam que estamos sendo governados por líderes fortes. O Trump acabou de sofrer um processo de impeachment do qual escapou mas deixou a América mais dividida que nunca. O que é mais forte? uma país unido ou um país dividido? O Bolsonaro, quando a maioria dos líderes políticos aproveita para sair fortalecida da crise do coronavírus, ele desafia a sensatez do próprio povo que o elegeu e escancara sua inépcia mostrando ao país e ao mundo que não tem autoridade nem para demitir os ministros que o incomodam no seu próprio governo; os espanhóis, em plena epidemia de coronavírus, já mudaram de governo três vezes; o Eurogrupo além de estar a braços com o Brexit, não se entende sobre a melhor forma de enfrentar a pandemia do coronavírus, que continua devastando vidas em todos os países da União Europeia de uma maneira nunca antes vista desde que ela existe. É cada um por si e salve-se quem puder…
Outro que pode pode nos ajudar a entender se estamos perante uma nova ordem mundial, a partir de sua visão oriental do mundo, é o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han: Segundo ele, “é possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue.” Na China a vigilância digital já é uma realidade, ela está ajudando a combater a pandemia do coronavírus com sucesso. Os cidadãos chineses não parecem muito preocupados com isso. Eles não ligam para aquilo que no mundo ocidental é considerado um atentado à privacidade, desde que lhe seja garantido o sustento e a sobrevivência num mundo cada vez mais ameaçador. “Os perigos não espreitam hoje da negatividade do inimigo, e sim do excesso de positividade, que se expressa como excesso de rendimento, excesso de produção e excesso de comunicação.” Conscientes disso ou não, os chineses confiam no Estado para lhes garantir segurança e prosperidade. Eles não se comovem com a recolha massiva de dados, nem com a falta de privacidade. Já o governo chinês evita a todo o custo que haja comoção. “A comoção é um momento propício que permite estabelecer um novo sistema de Governo”, todas as revoluções o provam. “É soberano quem dispõe de dados.” E o nosso filósofo termina filosofando: “Espero que após a comoção causada por esse vírus não chegue à Europa um regime policial digital como o chinês. Se isso ocorrer, o estado de exceção passaria a ser a situação normal. O vírus, então, teria conseguido o que nem mesmo o terrorismo islâmico conseguiu totalmente.”
E eu acrescento: para que isso ocorra não precisamos que um tirano prepotente e ignorante nos imponha sua tirania contra nossa vontade. A reação dos portugueses à pandemia do coronavírus relatada nos jornais europeus, os descreve como auto disciplinados, obedientes, refugiando-se em suas casas de campo, com cafés, bares e restaurantes fechados por falta de clientes, retirando as crianças da escola antes mesmo que isso se tenha tornado obrigatório, o que mostra a que ponto as pessoas estão dispostas a abrir mão de suas “liberdades” quando é a segurança e sobrevivência delas e de seus familiares que estão em jogo.
Quer dizer que iremos receber de braços abertos e prestar subserviência a qualquer ditadorzeco de pacotilha que nos prometa conforto e segurança em troca das nossas tão queridas liberdade e privacidade? Quer dizer que abriremos mão das nossas convicções e de nossos sonhos conformados com a mediocridade que qualquer regime totalitário possa nos prometer? Quer dizer que estaremos dispostos a vender nossa alma ao Xi Jinping em troca de uma liderança forte e de um radioso futuro comunista numa nova ordem mundial? Não acredito.
Embora não o deseje, acredito que estão sendo reunidas sim, dia após dia, as condições para que haja um deslocamento do eixo ocidental para o eixo oriental de uma nova ordem mundial. Também acredito que quando isso acontecer não será de forma abrupta e inesperada. A China já demonstrou que não tem pressa. O que a torna grande candidata à liderança de uma nova ordem mundial não é a sua ideologia comunista mas sim sua capacidade planificadora. Xi Jinping, o atual presidente (vitalício) traçou uma meta que não é segredo para ninguém: ele está preparando a China para que ela alcance o status de primeira economia mundial e de maior potência militar do planeta até ao horizonte de 2049, data que se comemora o primeiro centenário da República Popular da China.
Tudo indica que sua meta será alcançada. Isso não quer dizer que será o bastante para transformar a China num atrativo nem num modelo planetário cobiçado por todos como acontece hoje com os Estados Unidos da América. A influência da China sobre o resto do mundo se dará provavelmente de dentro para fora, ou seja, não será a China a impor sua hegemonia de forma exógena como hoje acontece com o Estados Unidos que o fazem sobretudo através do dólar como moeda padrão e do capitalismo como ideologia econômico-religiosa aceita pela grande maioria dos países integrantes da atual ordem mundial ocidental.
A China se imporá como modelo pela maneira como ela lida com o controle da população, com controle e aplicação dos recursos, com o controle e previsão das convulsões sociais, com o controle do pensamento dos cidadãos, com o controle dos sonhos dos seus súditos. A China do futuro estará para os controles assim como a América de hoje está para as liberdades. Podemos antever isso pela maneira como hoje as liberdades estão sendo cada dia mais vilipendiadas enquanto os controles estão sendo cada vez mais valorizados. O Brasil é um belo exemplo, mas não o único, dessa tendência. Pela primeira vez, num país democrático, um projeto autoritário chegou ao poder através do voto popular.
Precisamos acreditar que esta pandemia do coronavírus talvez seja a oportunidade inesperada que se apresenta de fomentarmos um revolução humana. Somos nós, pessoas que ainda estamos enraizadas em valores universais de liberdade e solidariedade, educados em escolas que valorizavam a razão e o contrato social, que precisamos repensar o capitalismo selvagem, questionar o laissez faire, laissez aller, laisser passer como ideologia, pensar a ecologia em termos de habitat e não de posse, e encarar os nossos semelhantes não como obstáculos ao exercício da nossa liberdade mas antes como parceiros indispensáveis ao alcance da felicidade.






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