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A nova ordem mundial é um híbrido

Quando Constantino, um imperador pagão, assumiu o trono no ano 306 da nossa era, o cristianismo não passava de uma seita esotérica. Dezenove anos depois, o cristianismo era a religião oficial do império romano e ainda hoje tem milhões de fiéis pelo mundo. Em 600, Maomé era um desconhecido comerciante polígamo que pregava no deserto sob o olhar pachorrento de seus camelos. Quando morreu em 1632, era um líder religioso, militar e político que dominava um vasto território que ia do Atlântico à Índia. Em 1913, os bolcheviques eram um pequena facção radical russa. Quatro anos depois eles dominavam a imensa Rússia. Em 1889 o Brasil era um império respeitado com um imperador que privava com as principais cabeças reinantes e pensantes do planeta. Dez anos depois era uma republiqueta sem crédito que precisou da anuência do próprio imperador, exilado em Paris, para que o Barão de Rio Branco aceitasse fixar definitivamente suas fronteiras. Em janeiro de 2020 os EUA eram lideres do neoliberalismo mundial. Noventa dias depois um minusculo vírus colocou o poderoso neoliberalismo de joelhos de uma maneira que David e Golias nunca sonharam com seus inimigos stalinistas e islamistas.

Fernando Pessoa escreveu que “Todo o império é uma decadência”. Impérios caem e outros se levantam de forma imprevisível. Será que a pandemia do coronavírus é o imprevisto que anuncia uma nova ordem mundial? Não. Não vou anunciar o fim do capitalismo, nem a queda do império americano. Até porque os Estados Unidos da América não são mais O poderoso império. Eles têm poder bélico suficiente para destruir o planeta 10 vezes. Para que serve todo esse poder de destruição se com muito menos que isso se destrói a humanidade? Além disso a chegada de Trump enfraqueceu como nunca os EUA. A soberba dele serve apenas para dissimular as suas fraquezas. Os EUA nunca estiveram tão polarizados e divididos e uma nação dividida é uma nação fraca. Mesmo assim, não me parece que estejamos à beira de uma revolução ou colapso. Vivemos tempos vertiginosos. A nova ordem mundial já chegou e não avisou.

Sem colapso nem revoluções, pelo menos por enquanto. Bastou o empurrãozinho de um vírus para ela ser revelada. A maneira como a pandemia infectou e afetou toda a humanidade, repentinamente, estabeleceu uma nova ordem e desqualificou para sempre a conjugação de impérios no plural. Agora a raça humana é toda sujeita de um império só. Deixamos de viver numa era de mudança. A mudança de era já aconteceu. Uma mistura de China com EUA, de liberalismo com igualitarismo, de comunismo com capitalismo. A nova ordem mundial é um híbrido.


O que me leva a acreditar nisso? Não sou guru, nem eminência parda de político, nem disponho de informação privilegiada. Tão pouco sou profeta, vidente ou mago. Ainda menos conspiracionista. A minha formação de etnógrafo me leva a valorizar apenas aquilo que observo. Observei algumas evidências que compartilho aqui.

A primeira evidência é de que o vírus confirma a falência do estado neoliberal, com sua política de desmantelamento dos serviços públicos, sobretudo o da saúde, e baseado em redes globais de produção que obriga as empresas ocidentais a fabricar na China. Além de isso facilitar a disseminação de um vírus, ainda dificulta o acesso a bens de consumo repentinamente tornados essenciais tais como luvas e máscaras. Mais do que demolir o serviço público e de deslocar a produção onde tem mais miseráveis para explorar, o neoliberalismo manifesta um profundo desprezo pelos pobres e desfavorecidos que são os mais atingidos pela epidemia. O desprezo nunca foi uma virtude e muito menos uma vantagem econômica. 

Do ponto de vista político o estado neoliberal tem ainda um perigo. O de ficar à mercê de tiranos que anseiam por decretar leis arbitrárias e autoritárias sob pretexto de combater uma doença. Num mundo onde, subitamente, se tornou imperativo administrar milhões de desempregados, com poucas chances de voltarem a encontrar emprego, fica difícil de imaginar isso ser feito por uma minarquia neoliberal. O que fica fácil de imaginar é isso ser resolvido no estilo Bolsonaro:"se não tenho como alimentá-los vou mandá-los à morte".  Esse tipo de instinto genocida do qual ele e o Trump já deram provas não tem mais condições de governar um país que tem que prestar assistência a milhões de desfavorecidos produzidos pelo coronavírus. Se não forem derrubados, para sobreviverem eles vão ter que se comunizar. 

A segunda evidência é que o capitalismo sobreviverá quiçá se fortalecerá. Ele não precisa do neoliberalismo para sobreviver. O capitalismo é altamente adaptável e tem uma grande capacidade de resistir a crises onde sempre vê oportunidades para se regenerar. Em momentos de crise quando uns estão perdendo milhões outros estão ganhando. É exatamente o que está acontecendo com as maiores fortunas do planeta. Os 30 bilhões perdidos pelo Bernard Arnault de manhã apareceram na conta do  Jeff Bezos à tarde, sem que eles tivessem combinado. Negócios que antes do coronavírus estavam falidos, agora valem milhões. Atividades decadentes se viram repentinamente na linha da frente. Indústrias que sobreviviam a balão de oxigênio agora estão turbinadas e estão com dificuldade em atender os pedidos. Imóveis que valiam fortunas, agora estão vazios. O capitalismo é um camaleão, ele se adapta ao meio ambiente.


Estátua de Reagan em Berlim
A terceira evidência é que o comunismo não morreu. Em 1987 Ronald Reagan - um presidente americano ultraliberal - pronunciou o famoso discurso em Berlim em frente ao Portão Brandemburgo com o emocionado apelo Senhor Gorbachev, derrube este muro!”. Dois anos depois, o muro de Berlim seria derrubado, a União Soviética dissolvida e os capitalistas do planeta aplaudiam e se vangloriavam pelo fim do comunismo. Não se falava mais no assunto senão para dizer que - com a queda da União Soviética e de todos os seus satélites - o capitalismo tinha triunfado e o comunismo tinha falhado. Apenas sobreviviam uns enjeitados tipo Cuba, Coreia do Norte e em certo grau a China. Mas eram países que não representavam qualquer ameaça e ainda dava para fazer negócios com eles. Na verdade o comunismo não precisava mais de Estados para se sustentar. Ele sobrevive como credo para milhões de pessoas - independentemente de viverem num Estado totalitário ou não - que acreditam que a igualdade entre os humanos é o único sistema justo e universal capaz de garantir a todos as melhores condições de vida.

A quarta evidência é que a China não vai precisar de se impor para conseguir um lugar de destaque na nova ordem mundial. A China já se impôs. Já se tornou indispensável. Já é incontornável. Como ela fez isso? Invadiu? Conspirou? Colonizou? Instalou microchips no cérebro da humanidade? Colocou câmaras nos vigiando durante o sono? Alienou nossas mentes? 

Não foi preciso. A China se tornou indispensável e incontornável com a ajuda e cumplicidade do seu principal rival, os EUA. Na busca por mão de obra barata e pela ganância do lucro fácil, o neoliberalismo americano derramou trilhões de dólares na China que permitiram a esta dar o grande salto social, econômico e tecnológico que podemos observar: crescimento do PIB de US$ 150 bilhões em 1978 para US$ 12,2 trilhões em 2018; transferência do módulo bicicleta para o módulo trem bala a uma velocidade de foguete lunar; principal consumidor de energia e de commodities do planeta; aumento drástico das emissões de carbono; 740 milhões de pessoas tiradas da pobreza; maior exportador de estudantes universitários do mundo; aumento da média de idade da população; baixa da taxa de fertilidade…Tudo isso faz com que hoje os jovens chineses têm mais chances de serem proprietários de um imóvel residencial do que os jovens americanos. Assim, os EUA criaram um forte rival econômico e ideológico. Um irmão siamês tão economicamente dependente que em caso de guerra comercial nenhum dos dois consegue machucar o outro sem se machucar a si mesmo.

Cada uma destas evidências está sujeita a avaliações e interpretações mas nenhuma delas poderá ser ignorada na nova ordem mundial que se instalou a partir da crise econômica de 2008 e que acabou de ser revelada pela pandemia do coronavírus. Independentemente das medidas sociais, políticas e econômicas que venham a ser adotadas pelos governos e desgovernos de qualquer país, o mundo após o coronavírus nunca mais será o mesmo. A partir de agora todas estas evidências se transformarão numa relação de forças que influenciarão nossa existência como pessoas e como cidadãos. É imperativo ficar atento e exigir participar das decisões. Se não for consultado, grite! Faça-se ouvir!

Depois de ver o “gado” bolsonarista taxar Sérgio Moro de comunista, embora não me considere comunista, vou dar o meu grito contra o anticomunismo oportunista. Subitamente, 30 anos após a queda do muro de Berlim, com a chegada de Donald Trump ao poder, o diabo do comunismo volta a atormentar os capitalistas que se apressam em instalar “gabinetes do ódio” em todas as administrações ultraliberais para combater o canhoto do comunismo. O anticomunismo não apareceu do nada nem é uma coisa natural. Ele é fabricado e alimentado por pessoas e organizações identificáveis que têm interesses bem específicos nisso, e que não olham a meios para alcançar os fins. O retorno do bicho papão do comunismo tem autor, data e local de nascimento e objetivos bem definidos. 

Seu autor chama-se Steve Bannon, americano nascido em Norfolk no Estado da Virginia, que a partir de 2012 se tornou editor executivo da Breitbart News, empresa proprietária de uma série de portais de (des)informação, que se destaca por ser anti tudo: anticomunista, anti semita, anti gays, anti negros, anti ordem estabelecida, anti China, anti Papa Francisco, anti social democracia, anti DEMOCRATAS , anti republicanos moderados, anti União Europeia… xenófobo, nacionalista, racista, sexista, populista e…. pasmem! Que se define ele-mesmo como LENINISTA: - “I’m a Leninist. Lenin wanted to destroy the state, and that’s my goal too. I want to bring everything crashing down, and destroy all of today’s establishment.“ Declarou ele. (Sou um Leninista. Lenine queria destruir o Estado, e esse também é o meu objetivo. Eu quero deitar tudo abaixo e destruir a atual ordem estabelecida).

Steve Bannon e Bolsonaro
Esta figura de proa da extrema direita internacional, embora tenha nascido na Virgínia, Estado onde se refugia Olavo de Carvalho de quem é bastante amigo, não tem termos de comparação com o dito-cujo porque ao contrário do guru de Bolsonaro, ele é formado nas nas melhores universidades, de onde saiu diplomado e certificado. Esteve à frente das maiores empresas mundiais, como a Goldman e Sachs. Embora seja estupidamente rico, ele não gasta um centavo do próprio bolso nem cobra por suas palestras ou movimentos porque é financiado pela nata de empresários ultraliberais americanos para disseminar o ódio.

Bannon é o principal arquiteto do Trumpismo, tanto na doutrina quanto na palavra. Tudo o que o Trump fala é mastigado por Bannon antes e depois de ser vomitado. Defende uma filosofia de que os Estados Unidos deveriam considerar seus próprios interesses exclusivamente contra o resto do mundo. Opõe-se à globalização e busca o confronto com a China como a principal "ameaça à América". Para alcançar seus objetivos usa e abusa da desinformação deliberada com o objetivo de estimular a raiva nacionalista e percepções exageradas de ameaça em seu público-alvo. Contra o governo Obama semeou discórdia e procura desmantelar tudo o que esteja associado às idéias liberais, globalismo e internacionalismo. Bannon defende a crença de que a China é responsável pelo esvaziamento da base industrial dos EUA e pela perda de empregos. Ele argumenta que Pequim há muito tempo travou uma guerra econômica contra os EUA, e que os EUA estão presos em um choque de civilizações por sua própria identidade. Como se os EUA e as grandes fortunas que financiam o senhor Bannon não fossem as maiores beneficiadas dessa relação promíscua com a China. 

Depois de ter encenado uma briga com o Trump para evitar processos por manipulação de dados através de um de seus gabinetes do ódio - a Cambridge Analytics - especializada em disseminação maciça de “fake news”, método que garantiu a eleição de Trump e também a de Bolsonaro, foi para a Europa onde criou um “Movimento” nacionalista calcado sobre o seu modelo americano. Para combater o Papa Francisco alugou um deslumbrante convento medieval perto de Roma, na Itália, mas não teve sucesso. Depois de repelido pelos europeus voltou para os braços de Trump para ajudá-lo a enfrentar o processo de impeachment, com sucesso. Agora voltou à carga e através das suas plataformas de disseminação do ódio, é voluntário para apoiar a campanha de Trump em 2020. Todas essas teorias da conspiração que circulam dizendo que o coronavírus foi fabricado pelos chineses em Wuhan são obra dele. Acusar a China de um ataque biológico intencional contra os Estados Unidos é uma tática direta de seu manual de guerrilheiro virtual. Baseia-se em nenhuma evidência e destina-se a estimular o medo e o ódio entre quem lhe dá atenção.

Em artigo publicado num jornal americano ele aparece definido assim: “ Bannon é um demagogo moderno. Seu ímpeto político baseia-se completamente no ódio, no engano e no dogma nacionalista, com o objetivo de promover uma agenda muito sinistra, maligna e divisiva. Até o momento, não está claro o quanto ele apresentará na próxima campanha de Trump, mas sua presença e influência não serão surpreendentes.”

Em todos os meios de comunicação que consultei não encontrei um único retrato positivo do trabalho de Steve Bannon. Não surpreende porque além de diabolizar tudo e todos, ele também é especialista em diabolizar a imprensa que devolve o troco na mesma moeda. Isso não parece preocupá-lo. Quando é questionado porque é tão odiado ele responde: “Se disserem de mim que sou o maior canalha do planeta, eu levo isso como um elogio”.

Este perfil de Steve Bannon é necessário para entendermos porque, subitamente, o “comunismo”, que acreditávamos derrotado, surgiu de novo como um lobo mau ameaçador da boa e velha ordem ocidental judaico-cristã. Diabolização essa que respinga para o resto do mundo e em particular para o Brasil com a chegada de Bolsonaro e seus minions acéfalos ao poder apregoando que é urgente proibir e banir não só o pensamento igualitário mas até a palavra comunismo. 

Com o pretexto de combater o comunismo chinês, os anticomunistas ressuscitados combatem é quem está revoltado com a desigualdade maciça de renda e de riqueza. O Lula por exemplo, apropriou-se da máquina de Estado distribuindo regalias e privilégios a todos os seus aliados sem querer saber se eles eram de esquerda ou de direita. Os mais beneficiados foram exatamente os empresários neoliberais brasileiros - Odebrecht, Andrade Gutierrez, Eike Batista, OAS, JBS..- que fizeram uma lambança durante o lulopetismo. Quando o Bolsonaro e seus minions, formados na escola Steve Bannon, descobriram a pólvora do anticomunismo, começaram a usá-la para fazer explodir todos os que não pensavam como eles, transformando o Brasil num NÓS contra ELES nunca antes visto. Aí o Lula e o PT que sempre manjaram com os neoliberais para se manterem no poder, viraram todos “comunistas” de um momento para o outro, líderes de um movimento universal imaginário - ao qual Olavo de Carvalho colocou o nome de Foro de São Paulo - que estaria transformar o mundo num antro de comunistas para se alimentarem de criancinhas no café da manhã.

Apesar de tudo isso, o comunismo continua vivo não só na China e nos países da sua esfera de influência como no coração de milhões de americanos e europeus cansados de serem vítimas da desigualdade gerada pelo neoliberalismo produtor em cadeia de excluídos. Isso resulta em milhões de “comunistas” americanos, europeus, asiáticos, oceânicos,  que lutam desesperadamente por uma sociedade mais justa. Não são todos comunistas de carteirinha, com os olhos em bico, que passam a vida lendo os 10 mandamentos de Lenine. Muitos deles nem se identificam como comunistas. Nos EUA chamam-lhes DEMOCRATAS. São eles que representam a maior ameaça contra o ultraliberalismo agressivo e arrogante americano pateticamente personificado na figura do presidente Donald Trump.

O principal objetivo do anticomunismo ressuscitado e potencializado por Steve Bannon e pelos oligarcas que o apoiam, não é só desacreditar e combater os países comunistas como a China ou Cuba. Seu principal objetivo é demonizar esses DEMOCRATAS que defendem uma sociedade mais justa e igualitária. Entre esses demonizados estão lideres políticos de craveira e grandes empresários super ricos, alguns entre os mais ricos do planeta, que embora tenham acumulado fortunas colossais graças ao sistema capitalista, nem por isso deixam de defender e de fazer campanha por uma melhor distribuição de riqueza.

Alguém escreveu que “um império derrubado por seus inimigos pode até se reerguer, mas aquele que desmorona de dentro para fora, esse não se levanta mais." Nenhum império é sustentável se não tiver como base de apoio a maioria dos seus sujeitos. Ora o que nós observamos é que os EUA são governados por um governo que nem sequer obteve a maioria dos votos. Também observamos que a China nem sequer está interessada em saber o que a maioria dos chineses acha do seu governo. Surge a pergunta: - Será que esses impérios estão desmoronando? Procurando saber, fiz um exercício simples: entrei num motor de busca, e pesquisei o seguinte tópico: “End of capitalism”. Fiquei impressionado com a quantidade de entradas tratando desse tema. No centro do debate está sempre a desigualdade maciça de renda e riqueza. Em matéria de desigualdade de renda e riqueza fica óbvio que a China se americanizou enquanto o EUA foram ficando cada vez mais dependentes da China para sustentar essas desigualdades.

Scott Miner
A análise que melhor resume todas as outras, foi feita por Scott Miner, diretor de um fundo da Guggenheim Investiments que administra uma carteira de ativos no valor de 265 bilhões de dólares. Em tom de alerta aos seus investidores ele disse o seguinte: “Depois do coronavírus os EUA nunca serão capazes de retornar o capitalismo de mercado livre como o conhecíamos” ; “Preparem-se para entrar na era da recriminação” (crítica amarga, reprovação, censura); “eventualmente teremos uma revolta populista para enfrentar a atual desigualdade maciça de renda e riqueza”. É supérfluo acrescentar alguma coisa.

A base de qualquer ideologia são seus valores dos quais emergem instituições e políticas específicas. O valor central do comunismo e do capitalismo é o materialismo. Sobre ele, o comunismo construiu o edifício institucional do monopólio estatal e o capitalismo, o do monopólio do mercado. Tanto os defensores do monopólio do mercado, quanto os defensores do monopólio do Estado vão ter que fazer concessões. Duas forças que até agora teimam em alimentar antagonismos, quando na verdade estão condenadas a assumir compromissos para impedir que a sociedade entre em colapso.


Como isso vai ser alcançado ? Ainda não está bem claro, muito menos com Donald Trump na administração dos EUA, que continuam desempenhando seu papel de liderança, mesmo sem governança. Até quando o povo terá condições de esperar por soluções tangíveis?  E agora? Será que o Trump vai continuar a jogar areia nos olhos do povo enviando cheques de 1.200 dólares aos esfomeados e bilhões de dólares em incentivos aos nutridos? Será que o Trump vai continuar preferindo acusar a China com base em teorias da conspiração estapafúrdias em vez de assumir que a política de saúde pública e assistência médica nos EUA são um desastre? As perguntas são muitas mas as respostas são poucas, porém complexas. No meu entender, elas são de apenas três ordens: material, social e espiritual.

Do ponto de vista material, se o principal ativo tanto do capitalismo quanto do comunismo é o materialismo, é bom começar por uma boa avaliação da sociedade materialista em que vivemos. Os recursos do planeta são exauríveis. Não dá para continuar ignorando essa realidade em nome da liberdade de empreender e da defesa do acúmulo desmedido de riqueza, tão queridos à doutrina neoliberal. Tão pouco dá para passar o rolo compressor da igualdade querendo reduzir todos à mesma condição, como prevê a doutrina igualitária/comunista chinesa. Serão estabelecidos compromissos para enfrentar uma prerrogativa inadiável: se os recursos são esgotáveis eles têm que ser bem administrados para não entrar em situação de penúria. Não existe ideologia, doutrina ou religião que possa ignorar essa prerrogativa.

Do ponto de vista social, a humanidade caminha em ritmo acelerado para os 8 bilhões de habitantes (hoje 11/05/2020, a contagem vai em 7.783.666.600). O estrago que o coronavírus possa provocar ceifando vidas humanas, não perturbará esse ritmo de forma significativa, nem impedirá que em 2100 sejamos aproximadamente 11,2 bilhões de habitantes na terra, segundo previsão da ONU. Nenhum ser que se digne pertencer à raça humana pode continuar pretendendo que o destino de seu semelhante lhe seja indiferente. É a esse sentimento de pertença que se chama humanidade. O nosso destino é comum. Não podemos continuar a usar os recursos disponíveis como se a terra fosse uma propriedade privada. Precisamos repensar o antropocentrismo - uma teoria contemporânea do geocentrismo - abandonada depois que Galileu provou que a Terra não era o centro do universo. 


Galileu
A não ser que do ponto de vista social admitamos que permanecemos terraplanistas. Uma teoria que angariou adeptos nos últimos tempos, onde prevalece o umbiguismo bíblico. Ao colocar o homem (bem mais do que a mulher) acima de tudo e de todos, o antropocentrismo caminha para a autodestruição da própria humanidade, tanto no sentido próprio quanto no figurado.

A terceira resposta é de ordem espiritual. A Bíblia diz que Deus criou o homem à sua imagem. Aparentemente foi exatamente o contrário que aconteceu. Se observarmos à nossa volta, o que tem de homens se achando Deus... Fica evidente que o homem, pensador, pregador, pastor, padre, guru, filósofo, antropólogo, professor, empresário, gerente, gestor, administrador, consultor, diretor, proprietário, deputado, ministro, presidente... se acham todos poderosos e onipotentes, enquanto Deus é relegado a figurante de quinta categoria. 

A confusão é tanta que ficou fácil encontrarmos ateus profundamente espirituais e crentes ainda mais profundamente materiais. À força de querer impor uma hegemonia religiosa no padrão judaico-cristão, acabamos por desvirtuar a força da espiritualidade que nos permite enxergar a humanidade como um todo. As igrejas professam que todos somos filhos de Deus, que estamos unidos num só corpo, por exemplo, no corpo de Cristo, para os que acreditam nesse dogma. Porém confunde-se unidos no mesmo corpo com corporativismo. Cada um se fecha nos limites da sua corporação desirmanados e mergulhados no vazio espiritual. Estamos entregues de corpo e alma ao deus do consumo. A dimensão religiosa que surgiu como uma ferramenta para apaziguar nossas angústias, transformou-se numa angustia incapaz de apaziguar nossa existência… materialista

Em vez de sermos abduzidos por Deus na sua divindade, fomos abduzidos pelo materialismo na sua crueldade. O objeto, a coisa, o carro, a casa, os móveis, a fábrica a máquina, o dinheiro, transformaram-se em divindades veneradas nos altares e catedrais de consumo que frequentamos ou sonhamos frequentar. Lojas, mercados, supermercados, hipermercados. Fomos transformados em idolatras do mercado. Para parar essa submissão ao deus do consumo, a resposta é espiritual. Até para um ateu a resposta a esta dependência é espiritual.

É claro que esta dimensão material, social e espiritual é perceptível mas ainda não é observável. Ela é uma ordem possível. Existe uma predisposição, quase um clamor, de uma vasta faixa da população para que ela se realize. O que impede que isso aconteça são resistências instituídas pelo status quo politico e religioso.  Falta a visão e a vontade política capazes de materializar essa realidade tangível. Precisamos de uma sociedade que faça prova de generosidade, empatia e inteligência para não deixar 500 milhões de pessoas cair na extrema pobreza, por causa da pandemia do coronavírus.

A máquina do Estado tal como a conhecemos não é adequada para enfrentar a mudança de era. Ela é engessada, cara, ineficiente, insegura e serve de palanque a todo o tipo de arrivistas que que veem na politica uma oportunidade de saciar sua fome de poder e glória parasitando quem produz e trabalha. A politica é a única profissão que não exige nenhuma competência para ser exercida. Qualquer um pode virar politico se arrumar um curral de gado disposto a votar nele. Antes ainda precisava de ter alguma base de apoio ou prestigio. Agora com os exércitos de robots digitais aperfeiçoados e banalizados pelos Bannon em voga, nem isso é preciso. Basta ser arrogante e sem noção. Não precisa de programa não precisa de ideal, não precisa de honra, não precisa de valores. Só precisa de ser anti qualquer coisa e de defender com unhas e dentes o modelo NÓS contra ELES. Com base nesse minimalismo, fica fácil angariar legiões de seguidores dispostos a se deixar alienar. Os de ultra-direita se tornaram expertos nesta alquimia de transformar alienados em votos. Aprenderam em boa escola, com professores como Lenine e Gramsci. Quando o Bannon declara que é leninista e que quer acabar com o Estado ele não exagera nem está sendo provocador. Ele está sendo sincero. Pelas táticas de guerrilha digital que manipula, ele se revela um exímio conhecedor de estratégia comunista do principio do século XX.

No Brasil ele tem vários discípulos estudiosos e aplicados. Carlos e Eduardo Bolsonaro são os mais conhecidos mas eles são apenas a ponta do iceberg de uma legião de manipuladores de dados e de arruaceiros digitais e em carne e osso, que teimam em impor seus pontos de vista como se fossem verdades inquestionáveis e inabaláveis. Todos eles são discípulos de Olavo, que é discípulo de Bannon que é admirador de Lenine. Eles estão aptos a desestabilizar qualquer aparelho de Estado ou Instituição. Não necessitam de nenhum tipo de ideologia específico. Tanto funciona com ideologias de esquerda como com ideologias de direita. Funciona com fanatismo politico, com fanatismo ideológico, com fanatismo étnico e com fanatismo religioso. Funciona com racismo, com sexismo, e com um punhado de "ismos". Funciona! O resultado todos nós conhecemos: guerras, fome, miséria, desgraça, atraso.

Ernesto Araújo
É caricato observar que a demagogia neoliberal não tem vergonha na cara, nem recua perante meios para alcançar os fins. Demagogia vem do grego e significa “arte ou poder de conduzir o povo”. Atualmente assume novos significados, evoluiu para a “arte ou poder de manipular o povo”. O filósofo grego Aristóteles já tinha entendido essa característica da demagogia e dizia que ela era a “corrupção da democracia”. Uma praga que tem vindo a minar e a desvirtuar a maioria das democracias ocidentais. Quando vemos um Chanceler Ernesto Araújo cantar loas ao amigo Trump como sendo alguém que atua “na recuperação do passado simbólico da história e da cultura das nações ocidentais”, percebemos que a “corrupção da democracia” não é palavra vã.

Quem conseguiu ler este texto até aqui está provavelmente se perguntando: - mas o que é que tudo isto tem a ver com essa tal nova ordem mundial híbrida? Eu explico.Tem a ver porque se partirmos das evidências que enunciei no princípio, de que o neoliberalismo está falido, de que o capitalismo está se reinventando, de que o comunismo nunca morreu e de que a China e os EUA estão profundamente interdependentes sobretudo economicamente mas também ideologicamente através dos milhões de DEMOCRATAS americanos que, como o chineses, são defensores de um sistema mais igualitário, obtemos um híbrido. Se acrescentarmos que os próprios demagogos e ideólogos do neoliberalismo capitaneados pelo Bannon são eles mesmo uma mistura de demagogia neoliberal que eles disseminam com métodos leninistas, reforçamos ainda mais a natureza híbrida da nova ordem mundial. E se concluirmos que o neoliberalismo está falido, e que aqueles que hoje o professam serão obrigados a se comunizar para se manterem na cena política e econômica, então é que fica definitivamente evidente que já estamos perante uma nova ordem mundial híbrida.

O pós coronavírus que, já é o novo normal, se encarregará de tornar tudo isso mais evidente, visível e escancarado. Quando observamos o povo clamando por mais controle para combater a doença. Disposto a abrir mão das sacrossantas “liberdades” em nome da saúde pública. Preparado para entrar na era da vigilância digital em massa para se prevenir das próximas epidemias.Tolerando empresas de manipulação de dados para orientar políticas públicas. Consumindo fake news ostensivamente caluniosas e mentirosas em nome da defesa de ideologias duvidosas…. Tudo isso e muito mais transforma a nossa realidade pré coronavírus e nos aproxima muito mais da China dos controles totalitários do que da América das liberdades falaciosas. Em ambas as situações seremos nós os atores dessa disputa entre dois mundos aparentemente antagônicos mas que, quando se trata de alienar o povo, para dele extrair mais poder, dinheiro e glória, se dão as mãos sem nenhum pudor.

Para terminar com uma nota de otimismo, eu acredito que o coronavírus oferece também uma abertura para mudar o mundo para melhor, desfazendo décadas de neoliberalização para dar às profissões vitais, como aquelas ligadas à saúde e educação a apreciação que elas merecem. Esta pandemia também está deixando manifesto e evidente que o planeta terra agradece a desaceleração da extração e consumo de recursos que todos sabemos finitos. Os novos indicadores ambientais são promissores. A desaceleração do nosso ritmo de vida estressante compensa as concessões que teremos que fazer a algumas “liberdades” que de qualquer forma já eram falaciosas. Existe todo um mundo melhor que está se revelando a nossos olhos: mais vida de família, melhores condições de trabalho, cidades menos poluídas e congestionadas, maior segurança alimentar, fim da chantagem do emprego que será substituído pelos robôs e inteligência artificial (vide meu outro texto sobre este assunto: "O emprego finou!").  … 

Mas tudo isso só se tornará possível se garantirmos a nossa contribuição. Se deixarmos correr sem engajamento da nossa parte, as máquinas vão continuar produzindo exclusivamente para que seus donos acumulem riqueza, a inteligência artificial continuará servindo apenas um núcleo exclusivo de tecnocratas, continuaremos a assistir à destruição do espaço público e, cereja em cima do bolo, o neoliberalismo falido ressurgirá na forma de fintechs totalmente digitalizadas quiçá transferidas par o domínio das blockchains , supranacionais e suficientemente ricas e poderosas para comprar os governos. 
Eu bem queria terminar com uma nota otimista mas está difícil.

Brasília, 11 de Abril de 2020, passados 60 dias de quarentena.

Comentários

  1. Um texto que precisa de uma profunda reflexão . Nada vai ficar igual neste contexto do "coronavírus". Mas a quantidade de problemas novos que a grande maioria de pessoas pobres com emprego e dos próximos desempregados vão ter de enfrentar no imediato, podem significar o desespero e anti-socialização com enormes convulsões à escala nacional, regional e continental.

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