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Coronavírus, o vírus da virada.



A pandemia do coronavírus talvez seja o acelerador que faltava para colocar o mundo ao ritmo que ele deveria estar se as forças políticas, sociais, econômicas e religiosas que compõem o Estado não tendessem ao status quo.
Dito de outra maneira, se o desenvolvimento social seguisse o ritmo imposto pelos costumes, pelas conquistas sociais, pelas inovações tecnológicas, pela era digital, pela necessidade de segurança e pela constante vontade humana de mudança, hoje nós não estaríamos tão angustiados com o coronavírus. Ele apareceria aos nossos olhos como um problema insignificante para resolver.

Parece exagerado? Eu explico: se os trilhões de dólares gastos em equipamento bélico - cujo resultado é tão somente o de fazer com que um único país, os Estados Unidos da América, imponha sua supremacia sobre os demais - fossem investidos para o bem de toda a humanidade, agora não estaríamos tão carentes de máscaras, álcool em gel, testes virais, medicamentos básicos e pesquisa científica, capazes de combater o coronavírus.


Ah mas ninguém estava à espera de uma tal pandemia. Fomos pegos de surpresa…

Mentira! Em 2016, um dos homens mais empreendedores e mais ricos do planeta, Bill Gates, recebia milhares de dólares na conta da sua Fundação Bill & Melinda Gates para dar palestras nas quais alertava, preto no branco, que o mundo estava investindo pesado e se preparando para uma guerra nuclear mas seria incapaz de combater um vírus letal quando ele aparecesse. Ele dizia : “Se alguma coisa pode matar 10 milhões de pessoas nas próximas décadas, é mais provável que seja um vírus altamente infeccioso do que uma guerra. Não mísseis, mas micróbios.

Se estamos nesta, não foi falta de aviso nem de exemplos históricos, como a peste pneumônica, mais conhecida por gripe espanhola que matou 50 milhões de pessoas há apenas um século atrás. Se o Estado realmente estivesse preocupado com a vida dos cidadãos, como lhe compete, não poderia ignorar o óbvio e estar agora completamente desamparado face a uma ameaça global que poderia ser evitada ou pelo menos enfrentada tranquilamente com medidas preventivas ao alcance da técnica da ciência atual. A mais flagrante prova disso está no modo como a situação está sendo avaliada por aqueles que, tendo sido eleitos para nos governar, se revelam tão ineptos nestes momentos difíceis.

Todos os dias somos martelados com análises estatísticas e com boletins informativos sobre a epidemia, querendo dar a impressão de que a situação está sob controle. Como ficar tranquilo e confiante quando assistimos indefesos ao triste espetáculo dos agentes e representantes do Estado se dilacerando em politiquices enquanto milhares morrem por falta de assistência mundo afora?

De um lado temos os fanáticos que já enxergam no horizonte as espadas erguidas dos quatro cavaleiros do apocalipse (peste, guerra, fome e morte), prontas a abater-se calamitosamente sobre a humanidade na figura de um vírus mortal, e do outro lado temos os lunáticos que minimizam ou simplesmente negam os efeitos do vírus, considerando a pandemia como pura fantasia, acompanhada de uma histeria coletiva sem nenhum fundamento.

Ainda ontem, Olavo de Carvalho, o guru da família Bolsonaro e de mais alguns desescolarizados promovidos a ministros, veio a público afirmar à boca cheia que  essa epidemia simplesmente não existe”, que “você não tem um único caso confirmado de morte por coronavírus” e que “é a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana.” Os milhares de chineses, italianos, iranianos e tantos outros que ainda choram seus defuntos atingidos pela moléstia, agradecem.

Uma coisa é certa: ideologias à parte, o Estado só está atrapalhando. Tomara que a era após coronavírus nos mostre que o Estado não nos faz falta. E que os debates tão inflamados quanto inúteis entre esquerdas e direitas, entre democracias e ditaduras, entre capitalismos e socialismos, entre globalismos e nacionalismos...  nada mais são do que poeira atirada aos nossos olhos para nos impedir de enxergar o quanto somos manipulados em nome de interesses escusos que em nada melhoram nem confortam nossa existência.

A pandemia do coronavírus mostra-nos que nunca o mundo foi tão materialista: consumidores esvaziando prateleiras de supermercado para constituir estoques indecentes de mercadorias sem saber se vão ter tempo de as consumir; ferrenhos defensores das liberdades clamando ao Estado que as suprima em nome de uma ideologia; espiritualistas enterrando os mortos sem o devido rito de sepultura por medo do contágio…

Entretanto, é curioso notar que uma das análises mais lúcidas sobre esta época materialista saiu da boca do Papa Francisco, um dos expoentes do espiritualismo. Ele afirma que “não vivemos apenas uma época de mudança, mas estamos dentro de uma mudança de época.”

Acredito que a pandemia do coronavírus se transformará no acelerador dessa mudança de época ao revelar que as forças políticas, sociais, econômicas e religiosas encarnadas no Estado não estão à altura das nossas aspirações, nem como indivíduos, nem como sociedade.

Como indivíduos, porque não queremos pertencer a uma cultura de descarte, em que o ser humano e até mesmo determinados povos são considerados como um “bem de consumo” que se pode usar e depois deitar fora. (como ilustra a medida provisória decretada hoje de manhã pelo Bolsonaro que suspendia por quatro meses o direito a salário dos trabalhadores sem prever nenhum tipo de remuneração. Medida provisória revogada na mesma hora diante do clamor dos atingidos e da indecência da medida).

Como sociedade, porque não queremos ficar à mercê das grandes polarizações do momento, onde os conceitos de exploração e de opressão já foram ultrapassados, para dar lugar aos conceitos de exclusão e de rejeição, onde os indivíduos são tratados como resíduos, como sobras, deste modelo de desenvolvimento apregoado pelo Paulo Guedes, ministro da economia do governo Bolsonaro.

Ainda é cedo para avaliar. Porém os sinais dos tempo nos colocam perante vários cenários possíveis, dos quais destaco dois:
  • o primeiro é o de que teremos menos Estado e mais Estados; e 
  • o segundo é o de que teremos menos Liberdade, para preservar mais liberdades. 
O primeiro é ilustrado pelo modo como o Brasil tem administrado a crise e o segundo é ilustrado pelo modo como a China está ultrapassando a crise do coronavírus.

Para ilustrar o primeiro cenário após coronavírus olhemos para o Brasil: o Estado brasileiro neste momento está nas mãos de governantes totalmente despreparados que nem sabem a que senhor eles servem. Para agravar a situação e para angústia de todos, o governo está se consumindo em mandos e desmandos, assustado com o impacto que a crise do coronavírus vai ter sobre as próximas eleições. Ilustração óbvia de que o Estado está muito mais ocupado com a sua perpetuação no poder do que com o bem estar da população. Enquanto isso, os Estados brasileiros, através dos seus Governadores, têm-se mostrado operantes e eficazes no enfrentamento da crise colocando o indivíduo e a saúde pública acima de qualquer prioridade.

Por isso deduzo que uma vez ultrapassada a crise, o povo saberá recompensar quem melhor o assistiu, tirando poder ao Estado para o entregar nas mãos dos Estados que sairão fortalecidos. Crescei e multiplicai-vos.

Do ponto de vista político, isso pode vir através de uma sanção nas urnas, como pode vir através de uma reforma politica. Em qualquer dos casos é provável e desejável que vá no sentido de uma descentralização e repartição do poder. Talvez de alguma nova forma de federalismo inspirada no modelo suíço (Suíça, um país menor que o Estado do Rio de Janeiro governado por 26 Estados autônomos e soberanos, o que faz dele um dos países mais ricos do mundo ) ou de um parlamentarismo inspirado no modelo português (Portugal, um país pouco menor que o Estado de Santa Catarina, onde quando o povo elege um governo de direita logo elege um Presidente de esquerda e vice-versa, fazendo dele um dos países mais pacíficos do mundo) capaz de amenizar os efeitos catastróficos da falta de visão e da falta de empatia dos nossos governantes, até agora apenas ocupados e inebriados com a concentração de poder e com os privilégios que isso lhes traz, sem se preocupar com os anseios da população.

Do ponto de vista econômico apenas sobreviverão os negócios que ofereçam eficiência, segurança e qualidade no atendimento à população. Uma tendência que já era observável antes da crise, mas que estava ocorrendo de forma extremamente lenta, foi agora acelerada pela urgência em apresentar soluções inovadoras para permanecer nos negócios. No setor alimentar por exemplo, que é aquele que conheço melhor, só sobreviverão aqueles que, mesmo tendo sido obrigados a fechar as portas, conseguem entregar no domicílio os alimentos, com qualidade e segurança.

No setor da indústria é provável que a morosidade com que têm vindo a ser encarados os novos desafios, onde a mecanização, a robótica e a inteligência artificial tendem cada vez mais a substituir a mão de obra rotineira e desqualificada, ganhe agora fôlego para enfim promover uma nova revolução que não será mais industrial mas sim uma revolução na administração dos recursos.

Taxaremos as máquinas e os robôs em vez de taxarmos os cidadãos. Tiraremos o foco do emprego. Pagaremos para que as pessoas fiquem em casa cuidando da família ou sejam alocadas em tarefas de interesse público. O foco deixa de ser o emprego a qualquer custo através do qual o Estado distribui benesses e promove corruptos para se consolidar no poder.

Colocaremos o foco no bem estar social, investindo na inovação e permitindo que as máquinas e os robôs façam de forma muito mais eficaz e barata aquilo que um bando de sindicalistas e incompetentes cobra caro para fazer.

Parece extravagante o que estou escrevendo? Não é ideia minha. Mais uma vez cito Bill Gates que está cansado de apregoar essa ideia, no meu entender genial:  “Os robôs que substituem trabalhadores humanos devem pagar impostos equivalentes aos impostos sobre o rendimento de um trabalhador” (...) “Gates argumenta que esses impostos, pagos pelos donos ou fabricantes de robôs, seriam usados ​​para ajudar a reforçar a reciclagem da força de trabalho. Ex-trabalhadores, motoristas e outros empregados seriam transferidos para serviços de saúde, educação ou outros campos onde os trabalhadores humanos permanecerão vitais”. https://super.abril.com.br/tecnologia/bill-gates-quer-cobrar-imposto-de-renda-de-robos/

Para ilustrar o segundo cenário de menos Liberdade para preservar mais liberdades, olhemos para a China: ela representa um quinto da população mundial, é administrada por um Estado autoritário que se tornou pivô do sistema capitalista sem dele fazer parte. Ela trabalha para o mundo capitalista, mas não obedece à economia de mercado. Os chineses têm uma mentalidade autoritária, inspirada pelo confucionismo onde as pessoa são menos relutantes e mais obedientes, confiando mais no Estado. Para combater o vírus os chineses apostam fortemente na vigilância digital, sem consciência crítica e sem quererem saber de conceitos de privacidade e de proteção de dados.

 “Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais são controlados. Quem atravessa no sinal vermelho, quem tem contato com críticos do regime e quem coloca comentários críticos nas redes sociais perde pontos. A vida, então, pode chegar a se tornar muito perigosa. Pelo contrário, quem compra pela Internet alimentos saudáveis e lê jornais que apoiam o regime ganha pontos. Quem tem pontuação suficiente obtém um visto de viagem e créditos baratos. Pelo contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos pode perder seu trabalho. Na China essa vigilância social é possível porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os fornecedores da Internet e de telefonia celular e as autoridades. Praticamente não existe a proteção de dados. No vocabulário dos chineses não há o termo “esfera privada”.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital se mostrou agora ser extremamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus celulares. Não é por acaso que o sistema sabe quem estava sentado em qual local no trem. As redes sociais contam que estão usando até drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena um drone se dirige voando em sua direção e ordena que regresse à sua casa. Talvez até lhe dê uma multa e a deixe cair voando.” https://brasil.elpais.com/ideas/2020-03-22/o-coronavirus-de-hoje-e-o-mundo-de-amanha-segundo-o-filosofo-byung-chul-han.html

Perante este cenário é provável que o conceito de Liberdade, tão orgulhosamente defendido por nós, venha a ser relativizado. Para que serve a Liberdade se as liberdades básicas de ir e de vir representam uma ameaça à nossa própria existência? O autor dos dois parágrafos transcritos acima, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, espera “que após a comoção causada por esse vírus não chegue à Europa (e ao mundo) um regime policial digital como o chinês.”  Nada nos garante que isso não aconteça.
Se tivéssemos de escolher, eu diria que antes um regime policial digital chinês que nos permita sobreviver e ser capazes de enfrentar qualquer pandemia, do que um regime ditatorial retrógrado, insistentemente desejado pelos Bolsonaro que nos faria regressar à idade das trevas onde morrer da peste seria interpretado como o desígnio de Deus, não restando outra saída senão entregar nossos corpos e nossas almas à sepultura.

Resumindo e concluindo, parece-me que o mundo após coronavírus não será mais o mesmo em que vivíamos antes da pandemia. Pessoalmente acredito que mudará para melhor. É bem provável que esta pandemia constitua um marco nessa tão proclamada mudança de época, tantas vezes anunciada e sempre adiada.

Nossas relações de consumo serão alteradas, a introdução da tecnologia e da robótica serão aceleradas, o medo de ficar em casa e perder o emprego será amenizado, abriremos mão da sacrossanta Liberdade para darmos mais valor às pequenas liberdades que dão sentido à nossa existência, a polarização política perderá intensidade e será desqualificada, o peso da economia sobre as nossas vidas e a ânsia do acúmulo desmedido de riqueza serão reavaliados…

Enfim, o papel do Estado e sua capacidade em nos impor a vontade daqueles que ele serve. serão questionados. As conquistas sociais angariadas ao longo dos séculos serão respeitadas.  Entraremos numa nova era em que as inovações tecnológicas surgirão como facilitadoras e serão colocadas ao serviço do bem estar comum.

Só a discussão entre materialismo e espiritualismo continuará a mesma. Porém, talvez de modo menos vertical e dogmático, menos determinista, para passar a ser encarada e discutida de forma mais horizontal, de ser humano para ser humano. Quem viver, verá. Pelo sonho é que vamos, como disse o poeta.

Artigo de opinião escrito por João Manuel Coelho, depois de 10 dias de isolamento social imposto pelo coronavírus.

Brasília, 24 de Março de 2020.

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