Era Pero Vaz de Caminha um corrupto?
A etnografia do Brasil começa com a Carta a Dom Manuel de Pero Vaz de Caminha. Documento admirável, hoje celebrado como a certidão de nascimento do Brasil, classificado pela Unesco como "Registo da Memória do Mundo", o original encontra-se guardado nos Arquivos da Torre do Tombo em Lisboa. Esteve arquivada durante 273 anos só tendo sido descoberta a sua existência em 1773.
Assim começa a carta: "Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu."
Logo na introdução, Caminha revela suas qualidades de etnógrafo e adverte: "aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu" sem "aformosentar nem afear". Eis o propósito de qualquer etnógrafo: revelar a realidade descrevendo o que observa e lhe parece sem embelezar nem distorcer.
A etnografia pode ser definida como a arte de transformar a observação em linguagem. Uma linguagem que permita a quem não teve acesso aos factos de apreende-los sem ser subjugado ao crivo do julgamento de valores emitidos por quem observou. A vocação da etnografia é observar e descrever o mundo tal qual ele se apresenta ao olhar do observador, sem nunca perder de vista que o observador também faz parte do objeto observado. Pero Vaz de Caminha o faz muito bem. Através da sua descrição conseguimos nos imaginar aquela cena do primeiro encontro entre duas culturas tão diferentes.
É muito frequente ouvirmos dizer que o Brasil não tem jeito porque a corrupção já está no DNA do brasileiro. E para ilustrar essa tese logo vem a Carta do Pero Vaz de Caminha descrevendo os portugueses "subornando" os índios com bugigangas e o próprio Pero Vaz aproveitando a ocasião para terminar a carta pedindo ao rei que solte o cunhado, mandado para o degredo na ilha de São Tomé.
Logo na introdução, Caminha revela suas qualidades de etnógrafo e adverte: "aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu" sem "aformosentar nem afear". Eis o propósito de qualquer etnógrafo: revelar a realidade descrevendo o que observa e lhe parece sem embelezar nem distorcer.
A etnografia pode ser definida como a arte de transformar a observação em linguagem. Uma linguagem que permita a quem não teve acesso aos factos de apreende-los sem ser subjugado ao crivo do julgamento de valores emitidos por quem observou. A vocação da etnografia é observar e descrever o mundo tal qual ele se apresenta ao olhar do observador, sem nunca perder de vista que o observador também faz parte do objeto observado. Pero Vaz de Caminha o faz muito bem. Através da sua descrição conseguimos nos imaginar aquela cena do primeiro encontro entre duas culturas tão diferentes.
É muito frequente ouvirmos dizer que o Brasil não tem jeito porque a corrupção já está no DNA do brasileiro. E para ilustrar essa tese logo vem a Carta do Pero Vaz de Caminha descrevendo os portugueses "subornando" os índios com bugigangas e o próprio Pero Vaz aproveitando a ocasião para terminar a carta pedindo ao rei que solte o cunhado, mandado para o degredo na ilha de São Tomé.
Um desses eruditos da corrupção, chamas-se Flavio Chame Barreto, é um imortal da Academia Fluminense de Letras e autor do livro A Neurociência da Corrupção: Como um escambo esculhambou um país. Logo na apresentação do livro, ele escreve:"A presente obra descreve a corrupção no Brasil, sob um olhar fisiológico promovendo uma reflexão sobre as sua possíveis origens biológicas, sociais e culturais que desencadeiam a manutenção dessa prática tão nefasta." Depois de se referir ao episódio em que os portugueses trocam bugigangas como os indígenas, ele escreve: "Obviamente, esse relato indica que o primeiro suborno em terras brasileiras já havia se mostrado eficiente ao atingir seu objetivo e assim Portugal conseguiu tomar posse do novo território."
Pronto! Está montado o cenário: como poderia o Brasil dar certo se a sua própria certidão de nascimento já é um testemunho acabado de como a corrupção corria solta logo na tomada de posse?Para os fisiologistas a Carta do Pero Vaz de Caminha seria uma espécie de amostra de DNA na qual seria possível identificar os genes patológicos da corrupção brasileira. Para os fatalistas, a Carta de Pero Vaz de Caminha seria uma bola de cristal através da qual seria possivel antever o futuro da nação com todos os seus problemas de corrupção, nepotismo, desigualdade, escambo, imbecilidade e mal entendidos que são tão nefastos para o Brasil como, aliás, par o resto do mundo.
Enfim, sejam quais forem os arautos da desgraça, a Carta de Pero de Vaz de Caminha serve frequentemente de desculpa para dissimular as mazelas do Brasil olhando para um passado remoto, sem se dar ao trabalho de identificá-las aqui e agora. Como se a carta ilustrasse uma espécie de pecado original ao qual estaríamos fadados, ficando assim explicados os governos e desgovernos de Brasil, sempre colocados em termos de bom selvagem versus mau colonizador, sem que cada um tivesse que assumir a sua própria parte de responsabilidade sobre o que acontece atualmente no Brasil.
Pretender explicar o Brasil de hoje à luz da Carta a Dom Manuel de Pero Vaz de Caminha, é como querer ler o futuro na borra de café ou em tripas de galinha. Primeiro porque o que Pero Vaz descreve ainda nem sequer é o Brasil, é apenas um episódio do encontro entre duas culturas, o choque entre duas civilizações. Aquilo a que Pedro Alvares Cabral colocou o nome de Ilha de Vera Cruz sem sequer saber se era uma ilha ou um continente. A terra de que acabava de tomar posse ainda não tinha qualquer atrativo comparada com as Índias onde ele tinha pressa de chegar para encher os porões de ouro e especiarias.
O Brasil é uma identidade multifacetada que só iria começar a tomar forma cerca de cinquenta anos mais tarde com a chegada dos jesuítas. Quanto estes aqui chegaram esta terra já era conhecida como Brasil. Nome provavelmente de origem francesa que designava a origem do "bois de braise", "le brésil" de onde chegavam toneladas de pau brasil (cor de brasa), levadas por corsários normandos e bretões, usado para extrair uma tinta que dava a cor purpura aos tão cobiçados tecidos usados pela nobreza europeia de então. A probabilidade de que essa seja a origem do nome Brasil é comprovada pelo fato de o gentílico de Brasil ser brasileiro, nome de uma profissão, e não brasilense ou brasiliense que teria sido logicamente dado se o nome tivesse procedido a denominação.
Seja como for, aquilo a que hoje chamamos Brasil é um complexo cultural constituído ao longo de mais de cinco séculos, enquanto aquilo que hoje entendemos por corrupção é resultado de uma política praticada aqui e agora que não tem nada a ver com a troca de bugigangas nem com o pedido que faz Pero Vaz de Caminho para que o rei autorize a soltura do cunhado.
Esse fisiologismo que pretende atribuir a corrupção a causas biológicas não só é uma escapatória que muito agrada aqueles que a praticam, porque assistem assim á expulsão de um mal endógeno para o domínio do exógeno, e acovarda aqueles que a condenam porque, em vez de combaterem os corruptos, se refugiam em alegorias com medo de serem perseguidos por eles.
A troca de bugigangas entre portugueses e indígenas é uma prática universal usada por qualquer ritual de aproximação e sedução que pouco tem a ver com corrupção. Quanto ao pedido do Pero Vaz ao rei para que solte o cunhado é uma prática comum a qualquer mortal, nobre ou plebeu, que precise de pedir um favor a um outro e que aproveita o fato de se encontrar numa situação propicia para o fazer.
Os fundamentos e raízes da corrupção não precisam ser procurados nos genes nem em fatores fisiológicos ou biológicos da humanidade. Eles se exprimem e se exercem de forma muito mais prosaica: quando estão reunidas as condições para que aconteça. O Brasil não precisa de Caminha para explicar a sua corrupção endêmica. Nem tão pouco é pioneiro nem exclusivo em matéria de corrupção. Cada país tem uma corrupção para chamar de sua. Mesmo aqueles que arvoram a bandeira da ética e das boas práticas e do combate à corrupção, são muitas vezes aqueles que passaram mestres em dissimulá-la. Deixando para os outros (países) o trabalho sujo de administrar a corrupção mas continuando a tirar proveito dos malefícios que ela produz a nível planetário.

Portanto, deixemos a Caminha o que é de Caminha, antes de mais um bom escrivão e sobretudo um grande etnógrafo antes do tempo. E denunciemos a corrupção pelo que ela é: uma praga que tem que ser combatida, aqui e agora, começando pelas nossas atitudes e pela nossa própria casa.
O Brasil é uma identidade multifacetada que só iria começar a tomar forma cerca de cinquenta anos mais tarde com a chegada dos jesuítas. Quanto estes aqui chegaram esta terra já era conhecida como Brasil. Nome provavelmente de origem francesa que designava a origem do "bois de braise", "le brésil" de onde chegavam toneladas de pau brasil (cor de brasa), levadas por corsários normandos e bretões, usado para extrair uma tinta que dava a cor purpura aos tão cobiçados tecidos usados pela nobreza europeia de então. A probabilidade de que essa seja a origem do nome Brasil é comprovada pelo fato de o gentílico de Brasil ser brasileiro, nome de uma profissão, e não brasilense ou brasiliense que teria sido logicamente dado se o nome tivesse procedido a denominação.Seja como for, aquilo a que hoje chamamos Brasil é um complexo cultural constituído ao longo de mais de cinco séculos, enquanto aquilo que hoje entendemos por corrupção é resultado de uma política praticada aqui e agora que não tem nada a ver com a troca de bugigangas nem com o pedido que faz Pero Vaz de Caminho para que o rei autorize a soltura do cunhado.
Esse fisiologismo que pretende atribuir a corrupção a causas biológicas não só é uma escapatória que muito agrada aqueles que a praticam, porque assistem assim á expulsão de um mal endógeno para o domínio do exógeno, e acovarda aqueles que a condenam porque, em vez de combaterem os corruptos, se refugiam em alegorias com medo de serem perseguidos por eles.
A troca de bugigangas entre portugueses e indígenas é uma prática universal usada por qualquer ritual de aproximação e sedução que pouco tem a ver com corrupção. Quanto ao pedido do Pero Vaz ao rei para que solte o cunhado é uma prática comum a qualquer mortal, nobre ou plebeu, que precise de pedir um favor a um outro e que aproveita o fato de se encontrar numa situação propicia para o fazer.
Os fundamentos e raízes da corrupção não precisam ser procurados nos genes nem em fatores fisiológicos ou biológicos da humanidade. Eles se exprimem e se exercem de forma muito mais prosaica: quando estão reunidas as condições para que aconteça. O Brasil não precisa de Caminha para explicar a sua corrupção endêmica. Nem tão pouco é pioneiro nem exclusivo em matéria de corrupção. Cada país tem uma corrupção para chamar de sua. Mesmo aqueles que arvoram a bandeira da ética e das boas práticas e do combate à corrupção, são muitas vezes aqueles que passaram mestres em dissimulá-la. Deixando para os outros (países) o trabalho sujo de administrar a corrupção mas continuando a tirar proveito dos malefícios que ela produz a nível planetário.

Portanto, deixemos a Caminha o que é de Caminha, antes de mais um bom escrivão e sobretudo um grande etnógrafo antes do tempo. E denunciemos a corrupção pelo que ela é: uma praga que tem que ser combatida, aqui e agora, começando pelas nossas atitudes e pela nossa própria casa.


Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário